segunda-feira, 31 de maio de 2010

Telegrama

Como as coisas andaram largadas por aqui recentemente. E volto mais uma vez para cantar as mediocridades dessa vida. Tento escutar uma música para relaxar. Talvez chico. Só consigo escutar João e Maria. Tantas referências. Me lembro de lisbela. E alguma coisa sobre querer ser o Bruce Lee do maranhão. O fato de não ter feito nada memorável é assombroso. Não sou bom de bola. Um guarda caças não me avisou que eu era um bruxo com 11 anos. Muito menos alguns jedis me acharam com 10. Não entrei em uma escola militar aos 15 muitos menos uma formatura emblemática aos 18. E não terei outra formatura emblemática aos 22. Parece que o único dom é o de estragar tudo.
Não virei pastor como queria aos 12 e provavelmente aos 30 não estarei no ministério das relações exteriores como quero aos 22. Os pesadelos nunca passam. Já decorei cada fração de segundo de infinita highway e ainda assim continuo acordando todas as noites molhado de suor. Antes eu até me apavorava. Hoje, já faz parte de mim. Apenas acordo, me acalmo, espero um pouco e volto a dormir.
Não sei se um dia realmente terei orgulho de mim. Talvez assim como os pesadelos, essa palavras tristes se tornem tão comuns que passem desapercebidas e não atrapalhem o teatro de uma vida feliz. Algo como escola cinema, clubes filhos ou televisão.
As fases vem e vão. Me falaram pra parar de falar de amor e que preferem as tendências suicidas. E no outro canto da mesma, na mesma esquina em outra canção me falaram que talvez o amor seja a maior das tendências suicidas. As vezes vejo essas ausências criativas. Talvez uma hora uma delas chegue e nunca mais se vá. E então com 40 eu poderei pensar que não sou o escritor das causas perdidas que me dava o luxo de sonhar aos 21.
Vejo poesia em todos os cantos da cidade. No mendigo na calçada. No grafite. Nas arquibancadas. Nos bares. Há quem diga que eu sou melhor em prosa do que poesia. E eu digo que essa poesia por segundos preferidas e universal, num trago qualquer de uma noite memorável foi embora e acho que nunca vai voltar. Lamento que tanto encanto tenha se perdido em vão numa noite, que assim como os pesadelos, prefiro esquecer. E o final continua por esperar. Mas a vida não é feita de finais.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Bem aqui

Quirinópolis. Um sufixo helenístico que domina as denominações interioranas e agrada a gregos e goianos. E um prefixo que não me remete a nada. Nem idéia. Talvez ser chamada de Criminópolis fosse mais adequado. Não que a pacata cidade (pelo menos enquanto o sol ilumina) fosse a capital da violência travestida ou a casa das incidências de homicídio. Mas, que a cidade reserva raras emoções, isso é indubitável.

E não guarda a sete ou oito chaves. Muito pelo contrário. Guardar é um verbo muito fechado, com o perdão do trocadilho. As emoções estão lá, disponíveis pra quem quiser. Pra qualquer um que se disponha a ouvir um sincero 'vou realizar seu sonho', um beijo metálico ou um trago azul num Derby. Pra qualquer um que tenha um bom coração e se dispa de determinados dogmas e preconceitos formados em decorrência da criação burguesa que lhe foi imposta.

Quirinópolis. Interior. Muito mais palheiro. Vômito. Derby é obra, é concreto, é asfalto. É capital que se ergue a cada dia numa velocidade assustadora, como a vodka que atinge o cérebro e te joga no chão. Como o rio que deságua nas águas turbulentas de algum mar ao sul de lugar nenhum.

Piercing. Coloque-o no meu caminho, que eu quero passar. Me faz ouvir as picapes de um dj numa boate abafada e sem área de fumantes. Ou admirar o nariz daquela que me faz bobo e já disse que não. Piercing. Quer algo mais urbano? Derby. Emoções. Mensagens coladas no celular dela.

Coloco uma pipoca no microondas, só que desligado. Muitas vezes, o que você busca está a dois passos de você, como a garota que pita cigarro de pedreiro e tem uma argola na língua. E mora a três quadras de você. Mas você não enxerga. Temos a mania de procurar longe o que está bem debaixo do nosso nariz. A felicidade não está necessariamente onde o vento faz a curva, ou depois dela. Pode estar a duas ou três quadras de você, bem debaixo do seu nariz e ofuscada pela mais digna sensação de solidão.

Está tudo bem agora. E em algum lugar desse chão goiano, alguém vai dormir com um gosto diferente na boca. Talvez gosto de fumaça da capital. E em algum lugar dessa metrópole, um alguém se deita com um gosto de vento interiorano na boca. Mas um gosto diferente do da pipoca que espera dentro do microondas desligado.


Homenageando Rafael Rabelo, baseado em fatos reais.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A felicidade não se compra na feira.


Hoje é o dia, é o dia que tudo vai por água a baixo. Você pensou que era simples assim. Simples assim. Não, não é. Você me traz péssimas lembranças, você acha que tudo está nas mil maravilhas. Que tudo que passamos não significa nada pra você, ao contrário que pra mim significou pelo menos o amor que um dia imaginei ter vivido ao seu lado. Pois é minha cara, esse é o mundo em que vivemos, isso tudo é real. Suas mentiras e suas idiotices fez você cair nesse buraco sem fundo, nesse mundo infantil. Apague este cigarro, não está vendo que falo sério com você? Tudo pra você foi somente isso, somente poluição, somente a dor no peito alheio, a dor da sua mãe que tentou te ajudar quando percebeu a sua deficiência, e você fez o que? Descarregou sua raiva toda em cima dela. Sempre imaginei, você em cima de um castelo protegida por um dragão, que te proíbe de fazer suas coisas. Mas você de certo modo agiu como um cavaleiro, tapeou o dragão e saiu por ai, cantarolando suas canções medíocres, ao som da noite, das baladas, do seu mundinho de merda. Quero esquecer esse inferno de Dante, esse inferno que foi ao seu lado. Vou te deixar, espero que não corra atras como fez das outras vezes, agora digo que acabou de vez, nada me faz mudar de idéia. Acabou. Não encoste em mim. Tire suas mão malignas daqui. Pobre garota, pra finalizar te digo: Bem vinda ao mundo real.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Day by day


Todo dia é a mesma coisa, acordo cedo, vou para o centro de aperfeiçoamento intelectual, e caio mais tarde no processo de cópias de uma vida sem limites.

Assim como o garçom trabalha todos os dias sem horário, vou entrando em um mundo sem volta, e acabo me deparando com a sociedade diversificada, costumes, culturas, que me dão uma base para seguir neste ramo.
Vejo o mundo de uma forma sábia, coisas que aprendi com o tempo, que hoje tenho facilidade e que me fazem levar a vida sem hora de parar, nem ao menos pra fumar um cigarro.
Bato a cara no monitor, escrevo frases erradas, mas tudo é fruto da vida.
Vou indo adiante e sei que tudo um dia acaba.
Tudo, mais tudo mesmo tem começo, meio e fim. Um exemplo mais certo disso é a vida, nasce, cresce, reproduz, e morre. Coisas que aprendi com a vida, lá atrás, la perto do meu mundo imaginário, das bandas do imortal, do mundo em que tudo era as mil maravilhas, que eu não soube dar valor.
Mas a vida é uma caixinha de surpresas, a vida é tudo que eu tenho, é tudo que eu preciso pra seguir em frente, por que quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Frases aleatoriamente coladas, não faz de nós revolucionários, mas espero que tanta conversa fiada me faça ver o mundo com os olhos de criança. 
Todo dia é a mesma coisa... 
 

terça-feira, 4 de maio de 2010


Esse silencio me incomoda, me empurra pra fora, me joga de lado, me faz delirar.

Isso tudo me fascina, me fere por trás, me joga na merda, me faz infeliz.
Não pretendo correr, sem ao menos aprender, sem um pouco de vinho.
Não sou infeliz, nunca fiz, nunca quis, eu só sei o que é.
Você me levou pra cama, me fez gozar, e me expulsou de casa.
Isso não me incomoda, não me passa a bola, não me deixa ganhar.
Isso tudo é resumo, é somente o mundo, é a luz do luar.
Ainda vou me envolver, sem ao menos dizer, que tudo é você.
Paro pra ver, te deixo dizer, procuro um lugar, pra gente morar, pra poder envolver, pra nunca mais te ver chorar.
Faço de tudo, cozinho, não fumo, bebo, lavo, ensino, aprendo, te deixo mandar, sem extrapolar, pra te mostrar como sou, pra um dia casar, ter filhos, beijar, te levar pra passear.
Isso tudo é fruto, da imaginação, que me faz dizer, que tudo é você, que só penso em você, que tudo é mentira.
Não vou ceder, não vou te buscar, sem ao menos dizer, que tudo acabou.
Pare de comentar, pare de escrever, mas te digo o porque.
Você vai morrer, assim como eu, assim como eu.

sábado, 24 de abril de 2010

ouvindo sampa no walkman.





este sou eu, parado na esquina.



a mesma esquina de outra canção.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Alucinação


Depois de sonhar com o delegado pra quem mandei flores, acordei assustada por me lembrar que não havia desligado a TV e, passadas tantas horas, percebi que ela estava fora do ar. Eu estava, naquele sonho, vivendo os melhores momentos da minha vida. Estávamos, nós dois, dando voltas pela lua no cavalo de Ogum, após vencer o dragão e fazer da chama, brasa. Brasa. Devaneios tolos me torturam enquanto revejo as fotografias recortadas, me fazendo lembrar com saudade do que já não somos nós.
Talvez nem Freud explique os tempos idos, os copos secos, as cinzas no cinzeiro e o sofrimento do poeta que jamais sentira nada. Tudo isso fez parte do meu sonho. Mais que isso, sonhei que cantávamos a nossa música, aquela que diz algo sobre o sexo ser assunto popular.
Voltando a parte boa do sonho, antes de eu acordar, antes de você me deixar e antes de eu começar a divagar dentro do meu próprio sonho, antes mesmo da chama ardente virar brasa e esta congelar meu sorriso, lembro-me que você me disse que iria comigo, onde quer que eu fosse. E naquele dia branco, que pra mim era como se tivesse mil cores, me lembro que te prometi o sol, se ele saísse, caso você viesse mesmo comigo.
De verdade você veio e eu dei todo o céu, tão imenso como o que eu sentia por você. Te dei a chuva para lavar seu ser. Te dei o sol para que se secasse e se escondesse do frio. Te dei por fim, flores, para que jamais se esquecesse da beleza que existe no amor maior. Percebendo que nada disso tinha te bastaria, lutei ao lado de São Jorge e vencemos o dragão. Ele me emprestou seu cavalo e te coloquei do meu lado para te mostrar a lua. Grave erro. Você se vislumbrou com o alto. Disse que de cima tudo é mais legal, apesar de esquisito, é tudo mais bonito. Comecei a perceber que nada te prenderia a mim se não me tinhas amor. Andei por todo o universo procurando algo que te faria meu, mas não encontrei. E eu trocaria a eternidade para viver tudo isso de novo, com você. Mas nada basta. Só o amor é capaz de se bastar. E a partir daí eu não quero mais reviver. A brasa foi suficiente para acender em mim a realidade.
Deixei você partir. Minha TV está fora do ar. Será que você me olha? Provavelmente não. Do alto é muito esquisito. Você está longe demais das capitais. E pouca coisa me interessa. Não me interessam teorias, coisas do oriente, nem romances astrais. Prefiro não sonhar e me delirar com experiências de coisas reais. Depois que você partiu, tenho raiva até mesmo do sol, dos seus beijos e dos sonhos que sonhei para nós. Depois que você se foi, já ouvi sessenta e três receitas pra te esquecer e eu sei que nada vai resolver.
Me tornei louca. De volta aos bares, fiz amizade com outros loucos, que orgulhosamente seguiam bêbados e orgulhosamente seguiam sonhando. Isso também me deu raiva. Me ensinaram, esses meus novos amigos, que quem inventou a razão, a emoção desconhece. Me fizeram seguir a emoção e parar de pensar em você. Pensar... foi algo que há muito deixei de fazer. O problema é que você tomou conta de tudo. Tudo em mim. Já não há emoção, já não há razão, já não há ninguém por aqui. Nenhum filme na TV, que continua fora do ar. Nenhum carro passa por aqui. Já perdi a conta de quantos cigarros enrolei e não dou a mínima pro que vai acontecer. Só os loucos não desistiram de mim. Dizem que o que eu sinto é moderno. O excesso faz sucesso, o final feliz, não.
Me ensinaram que esse excesso de amor era uma doença ficta. Eu já não sentia amor, sentia prazer em fingir sofrer. Percebi que o único remédio pra essa minha doença era continuar louca. Foi aí que virei poeta.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Telegrama

'Havia lá pra essas bandas loucas , aonde faz um calor do cão e um frio de rachar, um nobre português, que vivia uma maldição. A maldição de ser a encarnação da figura literária do cavaleiro da triste figura. Talvez por ter crescido no meio de tantos livros acabou se tornando um deles, da pior qualidade.'

Tava triste. Sofrendo com essa maldição de ser um eterno e medíocre clichê, sem brilho algum. Nesse meu quixotismo pós-moderno. Andando por aí parei meu rocinante de mil e cem cilindradas e entrei num bar. Não aguentava mais pensar na minha donzela. Que sequer jamais fora minha de verdade. Uma donzela inicialmente eleita por uma força oculta a tomar de assalto.

Queria encontrar alguns moinhos de ventos por aí. Não tenho culpa se nasci numa geração pobre de ideologias e causas. O muro caiu mas ainda sei que existem moinhos abstratos espalhados por algum lugar. Vivo uma aventura heróica em que não só confundo meus vilões, como se quer reconheço-os. E para isso, para alimentar o meu quixotismo, para que possa cavalgar nas estepes desse blog, procuro meus montros em todo lugar. E no final das contas, qualquer beijo de novela me faz chorar. Procuro nas arquibancas, nos muros de lamentações e grafites. Procuro no samba, tango ou nas noites em claro, descendo um serra qualquer nas Minas Gerais. Procuro nas rimas medíocres. Em vão. Não encontro. Jamais.

Entrei no dito bar com meu cabelo de acordo com a mais bela passarela européia, um óculos ray ban e minha jaqueta de couro. No braço um bandeira de rondônia, no peito um escudo do Goiás e no outro braço a bandeira de Goyaz. Arranquei suspiros da garota que estava sentada na cadeira vazia da mesa em frente. A barba por fazer e a morte anunciada no canto da boca. Olhei para a venezuelana doutora em questões transcendetes do balcão e pedi um café.

Dou três passos com minha bota de motoqueiro para a mesa do meio, não sei nem o porquê. Me sento. Percebo um guardanapo largado na mesa com uma marca de beijo, beijo de batom. Minha donzela, que inspirou minhas andanças em um rocinante de mil cilindradas passara por ali antes. Pela milésima vez um encontro casual nos traz de volta. Como o primeiro deles, dez mil anos atrás. Como o último dele, dez segundos atrás. Não sei se ela passara morena, ouvindo sampa no walkman, dez anos mais velha que eu. Não sei se fora loira, encantada e mágica. Ou ruiva, desconhecida. O fato é, que havia ali naquela guardanapo todas as minha sete vidas do amor . Registrados no autográfo mais sublime da arte pela arte.

O fato é que das sete vidas para o amor havia morrido em todos e agora vagava por aí. Na busca de outra garota que ainda me emocione. Sete amores como sete pecados capitais. Nenhum mais pecaminoso que o outro. Já diria a educação de infância: O salário do pecado é a morte.

Sinto saudade da morena, da loira e da outra loira. Sinto saudade do meu coração outrora intacto.
Sinto saudade da arquibancada que pulsa sem mim enquanto tomo um café numa estrada vazia. Sozinho, sozinho. Mais solitário que um paulistano. Pego minha moeda de cruzeiro, especial. Troco da bilheteria do último show dos mamonas. Coloco na jukebox. Essa moeda especial vai deixar ela tocando por dois dias.

Escuta essa música sentindo essa saudade. Do que passou, passa e passará por aqui. Me sinto um louco golpeando o vento, sonhando a dar brilho nos olhos que houvesse alguém pra ser golpeado com aquela espada. Sonhando com o brilho dos olhos de uma criança, que houvesse uma loira igualmente quixotesca, de óculos, a assistir aquele embate e suspirar pelo seu cavaleiro romântico. Dou mil golpes de espada a cada música que me passa. Aí me canso e percebo que realmente o mundo já tem os heróis que precisa e não encontrarei meus monstros. Fecho o meu blog, paro de escrever. Num clique mil e uma cilindradas se desfazem. Num clique não existe loira, não existe banda imortal. Em um clique, ando só.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Loira


Sexta-Feira, 16 de abril. Longe demais das capitais,Perto do Caos




Saio do trabalho e meu fiel escudeiro já está a minha espera. Só que nesse conto de cavalaria moderno o escudeiro tem a sua donzela e o nobre português senta sozinho na mesa de um bar. Vejo a noite que cai suave como um acento em fúria, ódio ou suicídio. Mas não, as tendências suicidas não me pertencem mais. Veja bem, hoje, sexta feira dia dezesseis de abril, faltam 6 meses e uma hora para o meu aniversário de 22 anos. Vejo a vida tão curta, que passa tão rápida e a cada trago dezenas de pessoas incríveis ficam pelo caminho. Me sinto um cara de sorte apenas de ter tido a honra de conhecê-las. Concerteza merecem os mais belos contos de cavalaria ou que seja uma simples poesia. Merecem qualquer talento aplicado afim de desculpar minha falta de valor em retribuir o carinho que me foi dado.

Chego no bar, vejo todos os meus amigos, queridos. Chego, sozinho. Veja bem, já esbravejei para os quatro cantos que não gostava dela. Acham que ela também não gosta de mim, uma vez que já fez até com que me sentisse mal. Mas vejo meus amigos e seus casais e ela sozinha na mesa, não me resta opção senão oferecê-la minha singela companhia. Não sei como ela chegou ali. Não sei quem a trouxe. Não sei quem a pediu. E confesso que passar a noite com ela era a última coisa que eu esperava para uma noite pretensiosamente tão especial. Mas eu que não bebo quis uma cerveja. Afinal, mentiras sinceras também me interessam.

Quando chego tento ignorar sua existência, afinal eu não bebo. Mas tocam todas aquelas músicas que eu amo e a cada gole que passa sua companhia se torna perfeita. A cada minuto com Augusto Licks tocando cerrado no walkman a alguns metros de mim, sua companhia se torna mais divertida. A cara que de recusa que fiz ao vê-la na mesa pela primeira vez, já não consigo mais. Começamos a conversar a cada música que passa. De repente com aqueles ciganos tocando aquela música vadia, aquela noite, sozinho, com aquela loira indesejada na mesa se torna a melhor de todos os tempos da última semana.

Logo após um tempo, como era de esperar a sua companhia me faz ir ao banheiro. No caminho toca uma música que nunca parou. Na primeira batida de uma baqueta já percebo que em meu caminho a nobre missão de ir ao banheiro deve ser interrompida. Os arautos do rei Gessinger param todo o meu exército de um homem só rumo ao banheiro trazendo uma carta de um reino tão tão distante. 'e eu que escrevi sem pensar, agora me arrependo roendo as unhas'.

O certo é que na sua companhia tive de fato a noite mais divertida de todos os tempos da última semana. E jamais poderia imaginar encontrá-la por ali, como já disse, logo eu, que não bebo. A sua companhia em todos os cigarros e delírios poéticos de um goiano ouvindo pampa no walkman. Senti saudade. Cheguei a pensar que em sua companhia ali fosse o meu lugar. O certo é que eu dancei sem querer dançar e agora já nem sei qual é o meu lugar.

sábado, 17 de abril de 2010

As cartas que eu mando


De volta em casa, resolvi voltar a escrever as cartas que disse que escreveria para nunca mandar. Verdade seja dita, ainda que não pensada. Falei sem pensar, escrevi sem pensar, bati consciente da dor que causaria, mas não consciente da minha falta de vontade de bater. Verdade seja dita, envelheci dez anos ou mais nesse último mês. Eu que não fumo, pedi um cigarro, implorei um perdão que talvez nem merecesse ter. Verdade seja dita, gostei de pedir perdão, gostei do cigarro e gostei da banda que fez a trilha sonora dessa viagem, a melhor dos últimos tempos da última semana. Pois bem, se não for pra falar a verdade, mentiras sinceras também me interessam.



Meu grande amigo louco,




Eu gosto muito de você! Ontem, naquele encontro de saudades, vontades, sonhos e realidades que se ajuntaram, percebi o quanto eu tinha saudade das minhas lembranças dos fatos que nunca aconteceram. Então, como rainha de um reino de um súdito só, resolvi tomar algumas decisões e gostaria de comunicá-las. Farei isso de forma pública para que todos esses seus amigos das bandas do imortal possam também ouvir. Divulguei então a carta a partir de uma coruja, dessas que não dormem de dia. São eficientes, sabe? Agilizam as notícias.
Pois bem, decidi após a melhor noite dos últimos tempos da última semana, mudar e fazer tudo que eu queria fazer. Me libertar da minha vida vulgar e dar uma chance para essa sua geração insana. A melhor forma que encontrei de conseguir isso foi procurando você. Afinal, somos uma única mente dividida em duas, opostas e conexas, como um espelho. A segunda atitude que tomei foi abandonar meu castelo e deixar a coroa de rainha. Enquanto não arrumo outro rumo, ainda moro por lá, no reino tão distante, mas construí uma ponte de acesso rápido pra facilitar as visitas. Você não precisa mais usar tapete, nem pegar carona em estrelas, tem sido bem mais fácil chegar até lá.
Entre sapos e príncipes, resolvi ficar com a cerveja e me juntar ao seu grupo de loucos. Espero que me aceitem apesar de careta. Mas careta até o diabo é. Descobri isso quando lhe ofereci o cigarro que você me deu e ele não quis aceitar. O encontrei quando o inferno entrou pela porta da frente que você deixou aberta ao sair.
Era isso que queria te dizer, te avisar que eu passei um tempo andando no escuro procurando respostas onde eu jamais acharia. Apesar de ser a causa e a saída de tudo, não conseguia achar o caminho de volta. Mas aí veio a chuva, caiu como uma luva na minha casa, na minha cara, um dilúvio, um delírio. Resolvi, a partir disso, pagar pra ver aonde vai nos levar essa loucura. Pois bem, estou de volta.



Loira

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Do lado de cá

Provavelmente fiz ontem a maior viagem de todos os tempos. Peguei um táxi em Neverland e mergulhei nas profundezas de minha mente, nos meus mais detalhados sonhos, procurando algo que eu não sabia bem o que era. Como aquelas vontades de comer algo que ainda não existe ou de ir pra algum lugar capaz de acabar com o tédio do msn sem você. Fui longe, longe. Bem além dos outdoors.

Fui pra Europa, entrei num pub inglês. Pedi uma cerveja alemã e cigarros italianos. Encontrei um desenho no meu bolso, um isqueiro e um chaveiro escrito 'love'. Almocei um bacalhau delícia e me satisfiz com o café na França. By the way, Made in Brazil. Tomei um whisky escocês e pernoitei num luxuoso hotel em Bilbao. Procurei em todas as gavetas do criado-mudo e não encontrei.

Acordei e pensei estar realmente acordado, mas senti a brisa européia no cabelo já castanho. Enfiei a mão no bolso do casaco e tirei um bilhete de loteria, da EuroLotto. 22 01. 2 2. Duas vogais, duas consoantes, um sentimento. Mas ainda não era isso que eu estava procurando. Paro um outro táxi, jogo o cardigã no banco de trás e mando tocar pro mar. Quem sabe está lá, ou a maresia me inspire. Abro o porta-luvas do carro, por via das dúvidas. Uma latinha de remédio, daquelas redondinhas, de metal. Não era isso.

Chego na praia, tiro a camisa, xadrez. Algo diferente do lado esquerdo do meu peito. Uma pintura, recente. Na verdade um nome. Esboço um sentimento que Wolverine deve ter sentido. Mas não. Esse desenho eu permiti que fizessem. Era isso que eu procurava. Procurei em cofres, gavetas, porta-luvas e latas, e esqueci de procurar em mim mesmo. No metal da minha pele, um nome.

Me acordo, agora de verdade. Estou numa cadeira, no sol. Olho pro meu peito e não tem nenhuma tatuagem. Era pra ter. Escuto a voz grave do meu pai: 'Tá do lado de dentro.' Outro assunto, com outra pessoa. Mas me basta. Já encontrei o que eu queria encontrar.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Anacrônico

Acordo e corro para uísque e acendo um cigarro. O sol queimando lá fora. E que se foda o tudo igual, escolhi isso por que é assim que quero viver. Foda-se aqueles cartões de ponto. Foda-se o maldito horário de todos os dias. Que os pequenos centavos pinguem em minha conta e que meus livros sejam vendidos. Que se foda tudo do mesmo repetidas vezes durante anos. A vida tem que ser um grande fim de semana todos os dias.

Viajo por aí bêbado, nem me lembro mais a sensação de estar completamente sóbrio. Sou aquilo que você chama de mau exemplo para os jovens de hoje em dia. Que ironia, o mau exemplo é você. Vejo a inveja em seus olhos, queria isso, o fim de semana todos os dias, em especial a sexta, quando o bom exemplo de pai mente para a família que tem muito trabalho no escritório para foder com a secretária na suíte de um motel.

Entendo sua raiva, sua filha ama literatura e quer me dar. Teu filho sabe tudo sobre você e te acha um merda. Que viva a grande hipocrisia da vida. Toquem assim a sociedade, que daqui, do 5° andar, sinto o fedor exalado pelas catedrais. Sai com putas, mas no almoço de domingo diz que a prostituição é um mal nesse país.

Você escolheu ser assim. Escolheu esconder sua vida louca de anos atrás. Escolheu esconder no baú sob a cama suas mazelas de hoje em dia. Vá lá, é segunda, finja tudo outra vez, por mais uma semana.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

C'era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones





A festa da geral

Volta pra casa, me traz na bagagem, tua viagem sou eu. Essa música não para de tocar na cabeça de um goiano em Porto Alegre, no meio do estádio olímpico. Ele e mais uns 40 mil. Loucos, jornalista, médicos, bêbados, todos do hawaii. No alto pendurada a bandeira que a geral fez para o Humberto, esse sim um ídolo, de músicas que nunca irão tocar, de cartas que eu nunca vou mandar, daquela faixa de capitão que nunca irei pegar. Frio e silêncio lá pras bandas do imortal. De repente uma agitação.Um tambor. Tum-Tum. On and on. É o aniversário de onzenta e um anos das bandas do imortal. Todo ser criativo que não consegue criar deve pular e louvar seus hábitos de sintetizador. A eterna arte de ser medíocre, como ele da bandeira longe longe lá no alto, Gessinger.
Ele, que era um garoto que como eu. Ele, o eterno capitão quixotesco, medíocre potencialmente falho e questionado. De repente um louco vestido de trapos sobe no palo e acende um isqueiro. Todos acendem também. E o tambor continua, tum, tum. E um bêbado sentado lá no canto, aonde alguns miseráveis fumavam drogas, começa a cantar em voz alta. Lá, lá lá ia. Lááá, láláia. E as pessoas começam a repetir. E de repente todos cantando, lá, lá laiá,laláiá. Vamo Vamo Grêmio. Todos começam a pular unísono juntando com o tambor , as luzes se acendem, todos eufóricos e de repente a banda começa a tocar.
A barca negra, o maior sucesso de todos os tempos da última semana. Todos ali, comemorando mais um aniversário, todos que não fumam pedindo cigarros. A bandeira de um garoto como todos aqueles quarenta mil loucos. A bandeira do cara que inspirou cada nota daqueles no palco. Tatuagens, suor, uma camiseta verde, nenhuma camiseta. Cabelos grandes, curtos. Branquinho do shopping, cara de bandido. A magia do espétaculo desce naquele espaço numa profusão de cores sabores, odores e amores. Rimas medíocres, geniais. Tudo ali, azul celeste. Verde por dentro, eternamente. Todos ali para cantar e vibrar.
Acaba o show, tem um louco tomando um chimarrão sentado ao chão. Tem quem tome uma coca e tem quem chore de amor. Tem quem toque uma gaita e tem quem toque um violão. Sento ali no chão, vejo as luzes do engarrafamento, tantas pessoas indo embora da festa. E nós ali, uma, duas horas depois. As luzes se apagam e aquela gaita ecoa solitária e intensa pelas ruas enquanto todos aqueles poucos bêbados divagam. Olho para minha blusa, velha demais. Me lembro de quando eu era um garoto. Me lembro dela. E amaldiçôo minha existência por não tê-la do meu lado.




Anoiteceu em Goiânia.


Em uma cadeira de balanço, numa casa vazia. Uma jovem senhora, com o mesmo rosto de quando tinha 20 anos. Senta, escute sua música. A chuva vem, as folhas crescem. Caem, morrem. Seu cabelo cada dia mais branco. Não consegue conversar, o silêncio é seu dom. Sente falta de seu amor de outrora, de cabelos menos brancos. Sente falta de todas as palavras que nunca disse por não tê-lo do seu lado. E simplesmente olha apaixonada pela janela, pra sempre.
Pela janela vê uma passeata de torcedores do Goiás. O Goiás foi campeão do mundo. São tão jovens quanto seu amor era quando o conheceu. Tão bobos. Tão apaixonados. Tão jovens.
Delira ao imaginar o brilho em seus olhos e chora de tristeza ao pensar em sua alegria. Ela nunca pensou que viveria para ver o Goiás campeão do mundo. Em algum lugar todas as forças das filosofias de nossa existências, ele deve dar aquele sorriso lindo que a deixou apaixonada.
Se cansou de esperar. Dorme essa noite e não espera que acorde amanhã.









-um ruído, alguém coloca a agulha no disco, e a música começa.
Ele olha pela janela. Seu cabelo enorme, a barba por fazer. A janela embaça com sua respiração. Se lembra dela, seu amor.
Um disparo, Um coração.

No meio do peito, dois segundos. Tudo lentamente se vai. O frio. O amor que volta com o vento. Até o fim.
Era um garoto, que como eu, amava uma garota. Pra sempre.

Quando a música tocar no rádio

Shopping. Observando um garoto que como eu amava Dunhill e Chopp da Brahma. Só que esse garoto tinha cabelos grisalhos e setenta anos de idade. E escutava no rádio uma canção, depois a mesma, depois a mesma. Mudava a estação, dizia que seu ministro ia ajudar. Só que o curioso é que esse senhor com o rádio ligado estava aleatoriamente colado no meio de um shopping. Peculiar, não?

Eu, três dígitos na balança, uma moeda no bolso e uma mancha no pescoço, observo o velho atentamente. É sempre bom fazer esse tipo de coisa, a experiência de vida é mais útil que a inteligência. Uma senhorinha chega, dá um beijo no homem e se senta do lado dele. Ele a abraça carinhosamente. Incrível. Um print screen mental, como provavelmente iria dizer o Samurai. Percebo que a música que toca no rádio dele é a mesma que toca no meu celular.

Tentoentender aquele momento, mais tento inutilmente. Um momento. E só. Desses que valem o ingresso. Cento e oitenta segundos se passam no relógio. Mais cento e oitenta. Saio do shopping e acendo um cigarro. Tragadas fiéis de quem não consegue ser mais direto. Volto e ele ainda está lá. Continuo pensando. E eu, maluco que sou, só chego a uma conclusão, sobre a música, sobre a vida, sobre o momento. Dica: Coração.

É, a conclusão é realmente essa e vem depressa na garganta. As palavras doem de tão agitadas. As letras se movem como se estivessem correndo atrás de uma locomotiva no Texas, se é que lá existem dessas. Toda estrada empoeirada me remete ao Texas. O 'T' passa depressa, assim mesmo, em maiúsculo. Duplo sentido. O 'e' arrasta uma mala com a etiqueta de 'especial'. O 'a' passa voando, alado, como um texto da última semana. A palavra do texto. O 'm' de Monta's passa montado num cavalo marrom, num galope rápido. 'M' de Monta's, de muito, de mesmo. E o 'o' de olhar, aquele castanho-tempestade que você tem quando acorda do meu lado. As letras correm numa sequência clichê. Na velocidade de uma vida. E a vida tem sempre razão.

Me viro do avesso e o simpático velhinho repete as minhas letras no ouvido da vovó. Ela muda a estação e sintoniza no Outono, na mais perfeita sintonia. Ele ouve um pouco e desliga o rádio. Ela não se incomoda. Por que sabe que mesmo quando o rádio estiver desligado, a música deles vai estar tocando. Por que certas músicas nunca param de tocar.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Só li dão Solidão


Quando olho e imagino, é Solidão

Quando durmo e sonho, só li dão
Quando digo que não quero, é Solidão
Quando me dizem que não, só li dão
Quando morro e desapareço, é Solidão
Só li dão solidão, até que tudo chegue ao fim.




Só.....

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