terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pra te acompanhar

Naquele rodízio infeliz de vícios que somente a poesia provoca, te escrevo.

Conheço uma louca, ela tem o meu sangue. Já foi brilhante e um dia simplesmente parou de crescer. Acho que todos paramos de crescer num determinado momento e estagnamos. Alguns se estabilizam na mediocridade. Todos os dias minha espinha gela de pensar que nunca vou crescer, nem transcender as barreiras dessa existência. Mesmo que não saiba quantas vidas isso custe.

Esse rodízio de vícios me consome e seduz e são o preço da minha virtude. Embora essa, talvez nunca realmente seduza nínguem. Choro, lamento o indagar da minha existência.

Nunca pensei que viveria para ver chegar. E hoje que chegou, perdeu. Tenho reais lágrimas dentro de mim que nunca irão cair. Simplesmente não penso nisso. Temo que um dia eu acorde e isso me faça triste. O mesmo para você. Enquanto isso, volto ao meu delírio infantil de escrever as dores fantasmas. Enquanto isso, temo que um dia eu acorde e isso me faça triste. Enquanto isso, escrevo pra te acompanhar.

domingo, 21 de novembro de 2010

Morrer a vida e viver a morte


Começa-se a vida após anos de morte.

Sob os versos fúnebres a morte só lhe trás sorte.
O acaso da verdade secreta,
Cai nos braços do apostador,
Que no embaralhar das cartas.
Só falta a melancolia de quem fecha os olhos e vê a solidão.
O contato por traz da morte, aos olhos de quem quer sorte.
Ao lado da vida, aquele que olha ao norte,
A rosa dos ventos lhe mostra o caminho,
Mas neste caminho não seguirei nunca mais.
Morro hoje sob as carícias do vento do leste.
Procurei por anos e anos o sabor da vida.
Já fazem décadas de morte,
Aonde nunca tive sorte.

domingo, 7 de novembro de 2010

30 horas

São seis da manhã. Acordo, mais um dia se inicia. Preparo um café bem forte e como um pão amanhecido. Escovo os dentes. Tomo um banho, me visto. Já são sete horas, estou atrasado. Não deveria perder tanto tempo pensando naquela modelo gostosa do Pará. Chego no trabalho e começo a revisar os depoimentos sobre a vida dura das prostitutas do DER-GO. Simpáticas aquelas mulheres. Disse que eu precisava passar pelas experiências que seus clientes passavam, para, como bom jornalista, mostrar os dois lados da história e só tive que pagar umas Schins para elas. O trabalho tem seu lado positivo afinal.


Meu editor-chefe está me enchendo o saco. Ele não quer este tipo de reportagem no nosso jornal, diz que é um jornal de família. Eu digo para ele, mas ele não acredita. Puta tem família, olha o tanto de filho da puta no mundo! Já entendi, ele não quer que eu invada a privacidade da mãe dele. Bom, eu já revisei os depoimentos, as mulheres falam sobre o ganha pão delas. Ganham pão distribuindo roscas. Estranho... A maioria sofreu abusos na infância, outras desistiram de procurar emprego. Há aquelas que escolheram a profissão por que gostam mesmo, estão torcendo para encontrar algum otário rico que se apaixone por elas.


Termino a reportagem. Faço algumas pautas. Jogo um pouco de paciência. Xingo no twitter. Ameaço o editor com algumas fotos que eu tirei dele lá no DER-GO. Agora ele está todo empolgado em publicar minha matéria. Ela vai sair no jornal de amanhã. Já são cinco horas. Vou para casa. Ligo para meu filho. Que desgraça! O moleque agora quer que eu o leve para o DER-GO. Não devia ter falado da matéria com ele. A minha ex vai me matar se eu o levar para o trabalho dela. Sou um otário, ela só queria meu dinheiro. Puta desgraçada.


Durmo cedo, quero ser o primeiro a ler o jornal de amanhã. Acordo. Vou para a banca, o vendedor está irritado. Não sei por quê. Minha reportagem ficou em destaque. “Reportagem Especial”. Muito bem Seu editor! Está logo após o caderno dedicado às donas de casa e antes do de esportes. Gostei. Ficou bem estratégico. Fico em casa. Meio-dia. Está na hora. Ligo a televisão, todos os jornais estão comentando minha reportagem. Mostram até pessoas nas ruas protestando.


Parece que o meu jornal: “Correio Universal do Reino de Deus” está vendendo mais que água. Opa, estão me ligando. Convite para participar do Hoje em Dia. Programa do Jô. Altas Horas. Estão me chamando para ser VJ da MTV! Hum, que beleza! Agora tenho status. Tenho que escrever um livro. Gregory Morgan não soa muito bem. Meu nome artístico vai ser Gregory Surfistinha! Quem sabe até eu consiga um convite para participar de A Fazenda. Seria o mínimo de gratidão que os donos do jornal poderiam ter por mim afinal. Rumo ao sucesso.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ele queria cantar a própria vida


Mesmo sendo o baixista da banda Okotô, Jair Naves, um ser inquieto nos palcos, queria um espaço para tocar suas próprias composições. No final de 2000, reuniu alguns conhecidos, procurou um estúdio e gravou quatro músicas. Assim surgiu Ludovic. Depois de 8 anos e dois álbuns, a banda chegou ao fim.

Em fevereiro de 2010, Jair Naves lançou um EP chamado “Araguari”, o seu primeiro trabalho solo. O autor de letras, como ele mesmo afirmou, “indisfarçavelmente autobiográficas”, faz referência a cidade que fica no norte do Triângulo Mineiro, local onde passou parte de sua infância. Na entrevista ele conta sua trajetória e revela, “já começamos as gravações do meu próximo disco, que deve sair em 2011”.

Quando você percebeu que a música era o seu lugar?
Para dizer a verdade, nunca tive essa convicção. Acho que enveredei por esse caminho porque gosto de escrever e creio ter uma certa facilidade com letras de músicas. Mas não me considero um grande instrumentista, um músico nato ou algo do tipo. Tanto é que só criei coragem para aprender a tocar e para compor minhas próprias canções porque na adolescência me envolvi com punk rock, com aquela história de que não é preciso ter grande conhecimento técnico ou um talento extraordinário para se expressar musicalmente. Tenho conhecimento das minhas limitações e me esforço muito para superá-las cotidianamente.

Como é o seu processo de composição? As suas letras são autobiográficas?
São. Indisfarçavelmente autobiográficas.

Como surgiu o Ludovic?
Aos 18 anos eu comecei a tocar baixo numa banda chamada Okotô, que já tinha um trabalho estabelecido no cenário paulista desde o começo da década de 90. Eu adorava estar inserido naquilo, na verdade me sentia até honrado, uma vez que eu ainda era praticamente uma criança e já tinha a oportunidade de fazer música profissionalmente, além de conviver com músicos experientes, talentosíssimos. Ainda assim, o fato de eu não ter espaço para poder tocar minhas próprias composições me frustrava um pouco. Então no fim de 2000 resolvi sair do Okotô , reunir alguns conhecidos e entrar em estúdio para gravar quatro das músicas que eu tinha escrito na época. Assim nasceu o Ludovic.

Você escreveu no twitter que o show do Ludovic no Goiânia Noise de 2005 está gravado na sua memória. O que teve de especial?
Esse show foi algo verdadeiramente mágico. Nós já tínhamos tocado em Goiânia uma vez, no Vaca Amarela de 2004, mas na ocasião tivemos uma recepção bem discreta, então não esperávamos muito. E acabou sendo uma das apresentações mais fortes que fizemos em toda a nossa história. Enquanto fazíamos a passagem de som, as pessoas cantavam trechos das nossas músicas a plenos pulmões do lado de fora. Chega a ser difícil explicar o que foi aquilo.

Ludovic no Goiânia Noise de 2005

O Ludovic tinha como uma de suas características a intensidade nos shows. No antigo site da banda tem um pedido de desculpas referente a um show no qual se machucaram algumas pessoas. Você acha que em alguns lugares falta maturidade e respeito por parte do público?
Essa observação era mais relacionada à forma como as pessoas reagiam à nossa música. Como o Ludovic tinha uma sonoridade mais agressiva e atingia as pessoas de outra maneira, às vezes parte da platéia se comportava de maneira equivocada e acabava se expressando com alguma violência, colocando a segurança de outras pessoas em risco.

Você já fez algum show que deu vontade de acabá-lo no meio e ir embora?
Infelizmente já. Poucas sensações são piores do que essa.

Em janeiro do ano passado, Ludovic acabou. Foram oito anos, dois discos e vários shows intensos. O que esse período significa para você hoje?
Um grande aprendizado, acima de tudo. O Ludovic não só me proporcionou algumas das experiências mais marcantes da minha vida, mas também ajudou a moldar a pessoa que eu sou hoje. A grande questão relacionada à banda, que algumas pessoas não entendem, é que as coisas mudam. Da mesma maneira que você não se apaixona duas vezes por uma mesma pessoa, é impossível viver tentando recriar um estado de espírito que não existe mais. Mas foi ótimo, valeu a pena. Quando eu me lembro daquela época, tenho a sensação de dever cumprido.

Qual o sentimento de ver a banda acabar em um momento tão bom artisticamente?
Um dos motivos preponderantes para o fim da banda foi justamente que não nos entendíamos mais tão bem artisticamente. Nos preparativos do que seria o nosso terceiro disco, ficou bem claro que cada um de nós tinha intenções e necessidades artísticas bem diferentes. De certa maneira, até incompatíveis. Teria sido um erro tentar levar o Ludovic adiante naquele momento.

No seu último show em Goiânia, tinha algumas pessoas gritando o nome de algumas músicas do Ludovic e você disse, “essa banda não existe mais” e agradeceu o carinho. Está sendo difícil desvincular sua imagem do Ludovic? Afinal, foram 8 anos de banda.
Não acho que algum dia eu vá conseguir me desvencilhar por completo da minha antiga banda. Basta olhar para exemplos de outros artistas com um histórico parecido: quando falam do Mark Lanegan, por exemplo, sempre falam do Screaming Trees. A mesma coisa acontece com o Lou Reed e o Velvet Underground, com o Arnaldo Baptista e os Mutantes, com o Damon Albarn e o Blur, o Wander Wildner e os Replicantes, enfim... é natural. Ainda que me incomode em alguns momentos, não tem como fugir dessa associação.

Você já pensava em um trabalho solo?
Não, de forma alguma. Foram as circunstâncias que me empurraram pra essa condição de “artista solo” – coisa com a qual eu ainda estou aprendendo a lidar, pra dizer a verdade.

Quando surgiu a idéia do EP “Araguari”?
Quando eu decidi que iria passar a gravar e lançar músicas sob o meu próprio nome, me pareceu que o primeiro passo ideal seria falar sobre algo que me fosse muito pessoal, sobre minhas origens e coisas assim. Acabei escrevendo duas músicas que falavam de Araguari (MG), a cidade natal do meu pai, onde passei boa parte da minha infância. Acreditei que seria um conceito interessante para um primeiro disco.

Alguns “críticos” disseram que seu trabalho solo demonstra amadurecimento. Quando você começou a pensar o conceito e tema do EP?
Logo depois do fim da minha antiga banda. Na época tive um certo receio de que as letras seriam quase indecifráveis para as outras pessoas, justamente pelo fato de eu estar tratando de um assunto muito íntimo. Felizmente, a aceitação para esse EP acabou sendo muito melhor do que eu poderia esperar.

É difícil para algumas pessoas imaginar como Jair Naves, um ser inquieto no palco, será Jair Naves cantando “Araguari”. O que as pessoas podem esperar do show de Araguari?
Não sei. Cada show é único. Todas as apresentações são especiais para a gente, nos emocionam de formas diferentes. Só posso dizer que essas músicas são muito importantes para mim, que nós nos esforçamos para apresentá-las da melhor maneira possível e que eu fico feliz em notar que há quem queira ouvi-las.

Você já tem algum novo trabalho em mente?
Sim, já começamos as gravações do meu próximo disco, que deve sair em 2011. Ainda não posso falar muito a respeito, mas eu sinceramente não poderia estar mais empolgado.

Como e quando você chegou a conclusão que Goiânia é a cidade mais “rockeira” que você já tocou?
“Rockeira” não é bem o termo certo que eu usaria, mas eu realmente acredito que Goiânia tem uma platéia especial. São pessoas que reagem de forma extremamente passional com a música que ouvem, muito acolhedoras e calorosas. Sempre que tenho a chance de tocar por aí, fico impressionado com a reação do público. Dificilmente se encontra público como o de Goiânia. Entre as cidades em que eu já toquei, acho que a única comparável é Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo.

Em sua opinião, como está hoje o rock independente no país?
No que diz respeito à qualidade artística, acho que vive um dos melhores momentos da história do Brasil. São incontáveis os artistas e bandas que eu realmente admiro: Charme Chulo, Vincebuz, Suéteres, Nevilton, Quarto Negro, Hierofante Púrpura, Mamma Cadela, Macaco Bong, Eletrofan, The Soundscapes, André Mendes, Repentina, INI, Seamus, Alarde, Pale Sunday, The Name, Gigante Animal... enfim, a lista é longa. Infelizmente, os velhos problemas de sempre continuam: a dificuldade para alcançar uma profissionalização dentro do circuito, a falta de estrutura, etc.

Por Leandro Gel e Yuri Montanini

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O último romance


Muita gente me perguntou sobre o festival. Alguns comentaram o suposto porquê de não ter falado nada a respeito. Vivo dando explicações. Explicando pra mim mesmo cada segundo. E assim vou perdendo minha existência. Estou a criar constantemente teorias que eu sei que já existem e se é que não, creio que sim e se perdem numa folha qualquer. E em vão, massageio meus delírios de grandeza com essas palavras difíceis por serem belas mas não menos superficiais. E estou sempre repetindo.



Amizade Transcendental .


Eu encontrei quando não quis encontrar. Quando mais desprezei e menos fiz questão de agradar. Quando fui então autêntico. Havia desistido desses amores que nunca se faziam reais. Percebi que eu não era um cara de amores. E eu disse o que era o sufoco. E eles se dispuseram a sempre me acompanhar. Eu encontrei e todos queríamos duvidar, afinal tanto clichê deve não ser.E em períodos diferentes, você me falou pra não me preocupar e ter coragem no amor. E hoje só de te ver, eu penso em trocar o meu crachá e a rotina num jeito livre de te levar. Afinal de contas essas questões metafísicas em um guardanapo de bar pra nós é se aventurar.



Um casal de velhos?


A morte.


[A paixão pela tênue linha entre a vida e a morte que seduz desde criança. A beleza de tudo que a tem e que flerta perigosamente com ela. O único ponto final real dessa vida hipotética em todas as constantes. Talvez a morte como produto final. Afinal não seria ela o verdadeiro último romance? Afinal por mais complexa que seja, a música fala basicamente de um amor ou de uma tendência ao mesmo. E não seria então o amor uma tendência suicida? Qualquer que seja o objeto que motiva essa paixão?

Como diria Raul: A morte surda caminha ao meu lado e eu não sei em qual esquina ela vai me beijar. Essa paixão que segue pela vida e se desenvolve. De todos os amores perdidos e amigos não feitos, da saudade de tudo que nunca se vê. Tem se então na paixão que sempre te seguiu no suicídio o último romance.]


Eu encontrei. Quis duvidar. Tanto clichê. Deve não ser. Afinal de contas, pra nós dois sair de casa é se aventurar. Me diz o que é o sossego que eu te mostro alguém afim de te acompanhar. Pra te acompanhar...




Fazenda maeda. 9 de outubro de 2009.


Uma menina linda, linda mesmo, loira dos olhos azuis beija e abraça seu namorado também muito bonito ao som dessa música. Exalam seu amor no ar para sempre e para todos. Aquele amor era o último romance de cada um e era eterno.



Um jovem solitário traga seu cigarro de maconha com paixão intensa. Encontrou a quando não quis. Para os dois sair de casa é se aventurar. E até quem o vê lendo o jornal na fila do pão sabe que ele a encontrou. Uma dádiva potencial afinal uma vida sem vícios é uma vida sem virtudes. E se o caso for de ir a praia leva a sua casa numa sacola. Quando a encontrou quis duvidar, afinal tanto clichê deve não ser. E só de a ver ele pensa em trocar a sua tv num jeito de a levar a qualquer lugar... Aquela música era para ele sua paixão, naquele momento.





E esse momento nunca acabou na minha cabeça. Numa complexa noção de tempo ainda estou parado no dia 9 de outubro, vendo o casal loiro do meu lado irradiando amor. O maconheiro na minha frente irradiando não menos paixão que o casal. E penso nisso todos os dias. Afinal o que é o último romance? São inúmeras definições dessa obra genial do grupo Los Hermanos. Fugi desse debate. E ele me encontrou. E como já diriam os quase famosos, a música te encontra. E além disso também. O que é pra ser te encontra. Essa teoria claro, também não é minha .

De tanto fugir resolve encontrá-lo. Cheguei a conclusão de que a definição é altamente variável, se encontrando aí a beleza e genialidade única da obra. Afinal de contas a fórmula da imortalidade é muito simples. Para quanto mais pessoas o seu discurso se faz importante e interessante de se ouvir mais importante ele se torna. E conforme o número de pessoas aumenta a durabilidade do mesmo na nossa sociedade e o seu raio de influência aumenta. Logo que alguém já deve ter registrado essa "descoberta" também.

Exaltamos tanto o belo porque ele não existe. Somos todos feios, cheios de vícios e pecadores. Cante para os feios, para os putos, para os fumantes e para as putas ( tem gente que me pergunta porque falo tanto delas...e eu falo: Somos todos prostitutas. Inexoravelmente.) Nesse último romance que acontece toda vez que nos prostituímos, nessa relação de vida curta com certeza apenas do fim . Dentro de sua existência a se renovar. Se prostituir não se confunde com a vida. É a vida. Cante para o último romance.
Talvez o grande mérito dessa obra seja a sua capacidade de se fazer íntima a cada um que a escute. Mas isso é óbvio. Mas eu não sou mais que o óbvio. Sou apenas a sua redefinição em um clichê.




Para a amizade mais transcendental de todas,

Para o amor mais amor de todos,




De todos os tempos da última semana. De todos os tempos do último romance.

sábado, 23 de outubro de 2010

Sinto



Vivo sentindo a falta do sentir.


Parece sem sentido.


Talvez por que não tenha.




Sinto muito.


Tristeza?


Dor?


Alegria?


Sinto por não os sentir.


Por não viver...



Sinto muito por isso.


Aquilo? Também.


Mas não por ti.


Por mim.



Porque não viver?


Por causa de ti?


Sem sentido mesmo...


Por isso agora vou esquecer


e começar a sentir.



Tristeza!


Dor!


Alegria!


Viver para sentir


e não sentir por viver.

domingo, 17 de outubro de 2010

Como sempre fiz

Fui criticado por não conseguir escrever duas linhas sem citar um outro autor, uma música ou ainda uma frase que já usei. Acendo um cigarro, não tão melancólico quanto outrora e percebo que realmente é verdade. Nada que escrevo é meu de fato, de direito. Por mais que o momento seja meu, meus dedos tremem de vontade de sair citando músicas e frases que se encaixam no contexto. Por vezes não fazem sentido algum. Ou por vezes não é pra ser entendida por todos, ou por ninguém. O fato é que infelizmente, eu não sei escrever.

Sou uma cópia de letras e poesias e sofrimentos alheios, como um Lego textual. Como uma porção de recortes, daqueles que você fez cortando as letras coloridas da revista de moda da sua mãe pra mandar um bilhete pra menina mais bonita da sala. Se me pedir pra escrever uma receita do macarrão que eu mesmo inventei, é bem provável que ganhe trechos de Agagê e ganhe forma de música não gravada com palavras clichês copiadas de algum cancioneiro.

Estou sempre martirizando e torturando o papel com verbos que já foram conjugados em outros pergaminhos, por outras pessoas. Às vezes penso que a caneta irá se mover sozinha, por que até ela já deve ter decorado ou sabido o trecho adequado a tal situação ou protótipo textual. E eu não sei usar os porquês.

Bato a cinza do Lucky e reflito: será que eu estou no curso errado? Deveria eu estar fazendo contas ou discutindo a Teoria do Princípio da Incerteza de Heisenberg? Pelo menos, eu teria a certeza de que não sou original e não me decepcionaria tanto. Quem sabe...

Guardo o papel listrado num bolso, a caneta Bic e o isqueiro no outro. Paro num ponto de ônibus e espero, como um sujeito qualquer, como um mortal qualquer, como o que sou. Fosse eu imortal, não estaria numa esquina qualquer, esperando um caixote metálico qualquer. Isso é tema pra outra E-storia. Agora é chegar em casa e copiar, como sempre fiz.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Eu sei

Às vezes apenas não há uma segunda chance. A palavra proferida, a boca suja do dissabor do fim. Palavras gastas, gestos exaustos, olhares mórbidos e tudo está acabado. Sem segunda chance. Não há que se pedir perdão, não há o que se perdoar. A noite acabou e eu preciso fugir sem você ou fugir de você. A derrota é um sentimento que todo mundo experimenta. O grande mal é quando se experimenta durante a vida inteira. É fácil falar de perda, de dor, de coração partido, de enganos, de ilusão e outros sonhos dantescos. Falar o quê sobre felicidade? Amores que deram certo não é um tema que faz muito sucesso, a não ser em livros de auto-ajuda.
Não tenho como falar de amores, nunca os tive bem, talvez por não me permitir, talvez por falta de sorte mesmo. Não sou mais, ou talvez nunca tenha sido, aquela garota, tão diferente do aparente, tão distante do constante. Tão dupla, tão dual. São sinais da não existência de uma segunda chance, a beleza que não perdurou, os óculos que se quebraram, o tapete que voou sozinho, o amor, negro, que foi engolido pelo céu que rachou, diante do sol, que apesar da dor, brilhava, ou, pela dor, brilhava.
É esse o motivo da raiva. Não são os erros, os sonhos em vão, não são seus olhos, a lembrança do seu abraço. O que dói é ver que existem flores, e outros tantos amores que persistem nesse dia branco, sem cor. É nessas horas que eu queria ter uma bomba pra poder me livrar do trágico efeito de tantos clichês, te fazer enxergar o meu mundo que você não crê. Mas não existe uma segunda chance. E aqui estou eu, chorando baixinho, sonhando acordada, engolindo lágrimas, numa triste tentativa de não sentir dor.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Passos lentos

Meu Deus! Quem é esse preparando uma apresentação sobre “accountability e a comunicação”, perdido em textos revisando o conceito de esfera pública, lendo a evolução do espaço público e cansado das eleições 2010?

O quarto escuro, a luz branca do computador com o editor de texto aberto brilha em seu rosto. O rosto gordo que já foi magro um dia. O rosto gordo e cansado. O rosto gordo que tem olhos que não querem mais dormir.

Vamos lá! O fim de semana está chegando. Aguente firme, José Dutra. Está chegando, está chegando. Ele repetia isso escutando Explosion in the Sky em seu player chinês. A cabeça encostada no vidro embaçado do ônibus, os fones no ouvido com o tu nin nin nin tu nin nin nin num do Explosion, sem neve e pouca luz. Ele está chegando, ele está chegando. O fim de semana está chegando. O fim de semana está chegando. Parece que a vida se tornou isso, a espera pelo fim de semana. Um ciclo vicioso, um cachorro que corre atrás do próprio rabo. Não importa, ele não quer saber, José Dutra só quer o fim de semana.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Enlatado

Em uma ponte qualquer, numa dessas grandes cidades. Podia ser Roma, Paris, Londres, Berlim ou mesmo São Paulo. Quiçá Goiânia. Uma paisagem complexa, moderna e difusa. Meio hemisfério Norte e Sul. Um clipe sem nexo. Um pierrô retrocesso meio bossa nova e rock and roll. Um garoto desses crescidos com seus cabelos loiros descendentes de um nobre inglês qualquer,um bom bigode português de orgulhar o mais selvagem motociclista ianque de um porte negro. Um céu azul.



Embaixo de uma ponte, uma vitrola velha em que john frusciante dedilha sua melodia. Ecoando pela fumaça da metrópole em meio ao estrelado céu azul, na mais bela figura de um gibi. Ecoando em meio ao fedor do belo rio. O rio como a sociedade e as pessoas da vida moderna, mais lindas e belas que nunca, porém cada vez mais próximas da destruição final, da morte interior e da podridão impossível de se escapar. Nas estrelas, cazuza voando e disparando rajadas de mágoa em sua mais bela performance anacrônica de barão vermelho dos filmes de guerra e canções de amor.



Esse belo garoto, que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones, de repente se vê sujo. A barba por fazer e o seu all star não mais azul. John Frusciante não para de tocar under the bridge. Em sua companhia apenas grafitado no muro o cavalo de chico que só falava inglês. Olhando então perdido escrevendo obras do além mar do mais salgado espírito lusitano. Olhando para as janelas das grandes cidades e sentindo falta de tudo aquilo que ainda não viu. E morrendo de sentir do que viu. Do que se perde,que vai e não volta nunca mais, afinal as vezes apenas não há uma segunda chance. De quando a maturidade é o preço e de todas as pessoas que não deu valor.



Cada janela amarela daquela cidade depois da ponte, naquela paisagem daquele quadrinho de gibi havia uma e-stória qualquer. Um casal fazendo amor. Outro fazendo sexo.Aquele seu melhor amigo que ele amou mais do que o mais nobre cavaleiro. E que hoje é apenas mais uma janela amarela na caricatura da cidade. Sente falta de tanto amor que recebeu e desperdiçou. Queria reunir todos aqueles que lhe deram atenção no bolso e simplesmente poder dizer, obrigado. Sinto muito se os perdi pelo caminho, mas eu realmente amo todos vocês.
Mas a vida não é uma estória em quadrinhos. E o barco com a vitrola vai passando, passando. E enfim, nem a música lhe faz companhia mais.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Crônica de uma morte anunciada





O Amor!


Antes, na paixão a troca de olhares das rimas medíocres do pseudo intelectualismo da mesa de um bar.

Do verdadeiro intelectualismo do amor que apenas se sente . De quem respira poesia.

A morte da arte, da vida. Arte pela morte. Arte pela arte.

Das revoluções que nunca se farão e dos mares nunca navegados.

Numa esquina por aí.

No metrô, nas coxas alheias ou nos sorrisos tristes. Sempre lá. O amor, a crônica dessa morte anunciada que é a única certeza de uma vida triste.



Aquela velha sensação. Um frio na barriga, angústia talvez. Um pesadelo, um amor indigesto. A sensação enfadonha de ser infantil e achar viver é morrer de amores. Talvez seja vontade de fumar, esse suicídio industrial, apoteose pseudo intelectual. E de tragar palavras travestidas trotoantes, seduzindo o medo que nunca te abandona, do velho frio na barriga. Então assim, se entregar a medíocridade e quem sabe. Quem.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Diário de Morte


Aquele que anda descalço é livre, ele está totalmente em contato com a natureza. Os pés descalços naquela terra firme e seca, nem me imagino a 40 anos atraz. Sabia que esse dia chegaria.

Nossa árvore traz toda a nossa fonte de energia, todos por aqui construiram suas casas em volta dela. Sua sombra atinge toda a cidade, e traz-nos aquela sombra dia e noite. Como é bom respirar esse ar tão puro, as vezes nem me reconheço sem essa máscara.

As crianças brincando de pique-esconde. Da última vez tivemos que procurar além do alcance da nossa árvore. Essas crianças não tem limites mesmo. Já avisei e continuo avisando, " não vão por aqueles lados, la vivem aqueles que nunca nos ajudaram, aqueles que não respiram o mesmo ar que nós ", toda vez tropeço neles, acho que nunca irão acabar.

Esses dias olhei la no meio da nuvem, e vi rastros de luz, imediatamente mandei todos para suas casas. Eles estão evoluindo, nunca vi algo tão grande, aqueles tentáculos, cada dia que passa dou falta de uns e outros por aqui. Acredito que tenham achado outro lugar bom para se morar, mas também creio que possam ter ido para o inferno.

Estou tão cançado de tudo isso, não tenho sossêgo nem um dia sequer. Nosso médico sofre alucinações, um dia desses ele operava um dos nossos trabalhadores e achou que era um cozinheiro, picando as verduras e legumes, o enfermeiro tentou tirar o bisturi das suas mãos e foi atacado também, precisou de 4 pessoas para parar aquele louco. O nosso cozinheiro ainda é pior, ele acha que o mundo acabou e no Natal ele tentou matar a todos colocando veneno de rato na nossa sopa. Sei que ele não tinha más intenções, pois essa vida não está sendo fácil.

Faço todo o trabalho pra esse povo, lembro de quando me chamaram para se juntar a eles. Foi algo tão grotesco, me fez tremer de raiva, não sabia do que eles eram capazes, só pude perceber depois daquele dia.

Toda noite que me deito ao lado da minha mulher, e passo a mão na sua perna, lembro de quando ela perdeu uma delas, não gosto nem de pensar.

Hoje vou me deitar cedo, amanhã é um novo dia, mesmo com toda essa escuridão dá pra ver que não perdemos o nosso calendário. Abro meu diário e começo o cabeçålho;


Terra, Os sobreviventes

Dia 20 de março de 2127


Mais um dia sobre a sombra das nuvens negras, respirando o ar de máscaras de oxigênio, andando pelo chão que não semeia, em busca da natureza colorida que não vejo a mais de décadas. Essa poluição matou todos os animais, separou as classes e exterminou a fé.

Mensagem de hoje será a mesma de ontem;


Aquele que anda descalço é livre, ele está totalmente em contato com a natureza...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O maior Grenal de todos os tempos dos últimos cem anos


*Texto de autoria de alguém que assinou Chokito na seção de comentários das colunas do site globoesporte.com , *


Antes de começar a partida, um contraste já é notório: as chuteiras. Os colorados desfilam com belos e ousados modelos roxos, lilás, amarelos e mais uma infinidade de cores e estilos. Guinazu é o único que usa uma preta, e é motivo de piada entre o grupo. Tayson e Bolívar sempre puxam seu calção nos vestiários por causa disso. No lado Tricolor, todos com chuteiras pretas. Paulo Nunes cogitou colocar uma branca nesse jogo, mas Dinho não deixou. Na verdade ele apenas comentou que não era boa idéia, mas sugestão do Dinho é ordem. Felipão ficou sabendo e deu razão ao cangaceiro dos pampas. O comandante gremista olhou pro diabo loiro e disse: tu não te fresqueia, guri. Recado dado.
Durante o aquecimento, o simpático e malemolente Tinga se aproxima de Rivarola sorridente e pergunta: que legal, to vendo que você está com uma chuteira maior que a outra. É a nova moda? Riva, com a cara fechada, sem olhar pro moleque, responde num bom portuñol: “não. Estoy com una unha encrabada”. Alecssandro dá uma bela risada, achando que era piada. Ao ver que o gringo não riu, calou-se e fugiu pra perto de seus amigos.
Começa a partida, saída para o Inter. O estádio desaba em vaias. O experiente D’alessandro se assusta e se livra da bola, toca pra trás. O colorado toca uns 3 ou 4 passes assustado e se atrapalha: lateral para o Grêmio. O estádio vai abaixo, vibração total. Lá pelos 25min a equipe colorada já está mais tranquila e começa a jogar. D’alessandro dá lançamento espetacular para Tayson, que pedala na frente de Rivarola e só não morre porque é rápido: escapa da tesoura do paraguaio e toca para Tinga, que dribla Adilson e chuta no canto de Danrlei. Indefensável. Grêmio 0, Inter 1.
Felipão vira bicho. Xinga até a nona geração do time todo. Se revolta com Rivarola por não ter matado o pequeno Tayson. O time do Grêmio se possui. Dinho coloca em prática sua máxima: “por mim só passa o jogador ou a bola, os dois juntos não dá”. Até o leve e saltitante Paulo Nunes vira um monstro, contagiado pelo resto da equipe ele bufa e dá carrinhos. O estádio vibra a cada chutão, a cada falta dura e demais lances de certa truculência.
Mas com a bola nos pés esses caras também têm bala na agulha, meu amigo. Arce dispara na direita, passa pela marcação, cruza com uma perfeição poucas vezes vistas no esporte bretão e, Jardel, cuja absurda impulsão faz com que consiga colocar a cabeça acima da altura das mãos de muitos goleiros, pula com maestria e confere um testaço em direção ao chão, fazendo a bola quicar pouco antes da linha e morrer no fundo das redes. Explosão geral de euforia na Azenha: 1×1.
O Inter se desconcentra. Carlos Miguel faz boa jogada, toca pra Arilson, que dá uma janelinha em Tinga, devolve pra Miguel, que encontra Paulo Nunes bem colocado. O diabo loiro invade a área, corta pra direita e é derrubado por Índio. Pênalti. Dinho dispara uma bomba no ângulo esquerdo de Renan. Inapelável. Grêmio 2, Inter 1. O Inter acorda, voltam a jogar bem. Felipão surta com o time. Fim do 1º tempo.
O gol do Inter parece iminente na 2ª etapa. O Grêmio se retrai demais. O time colorado têm muita habilidade. E jogam pra cima. Dessa vez é D’alessandro quem pedala pra cima de Rivarola. Dessa vez Riva não perdoou: coice. D’ale chora rolando no chão. Jogadores do Inter cercam o juiz, que é uruguaio e não muito tolerante. Não é tolerante com frescuras: só amarelo pra Rivarola. D’alessandro lesionado, entra Giuliano no seu lugar. Danrlei aproveita a discussão pra chamar Alecssandro num canto e dizer, com o dedo em riste, que se eles continuarem fazendo gracinhas, alguém ia quebrar a perna ali hoje. Alecssandro vai relatar ao árbitro a ameaça que recebeu e o juizão o ignora, mandando ele parar de chorar e jogar bola.
Dinho fica um pouco frustrado com a saída prematura de D’alessandro. Ele tinha prometido durante a semana para uns 37 torcedores que iria quebrá-lo. Riva foi mais rápido. Tudo bem, bola pra frente.
Tinga faz boa tabela com Giuliano, que devolve pra Tinga, que tenta driblar Goiano e… TUM! “Pega o que te mandaram”. Luis Carlos Goiano dá no meio do Tinga. Tinga lesionado. Mais um teatrinho do elenco colorado pressionando a arbitragem. Amarelo para Goiano. Andrezinho entra no lugar do lesionado. O Dinho bem que avisava: “o Goiano é bandido também, dá tanto pau quanto eu. A diferença é que ele é educado, atleta de Cristo. Ele pede desculpas, eu bato e saio sem nem olhar pro cara”.
A equipe colorada perde duas das suas principais peças, mas segue perigosa. O Grêmio, entretanto, equilibra mais a partida. Aos 35 do 2º tempo, Adilson, exausto de tanto desarmar guri novo, sai aplaudidíssimo por sua quase perfeita atuação. Luciano entra. Aos 41min é Paulo Nunes quem cruza, Jardel voa e destroça a bola com a testa, ela explode no travessão, volta para a entrada da área, Carlos Miguel vem correndo de trás e dá um bico na gorduchinha, que vai morrer no fundo das redes de Renan: 3×1, festa total. Pra ganhar tempo, Felipão tira os também cansados Jardel e Paulo Nunes, e coloca Nildo e Alexandre Xoxó (Alexandre Gaúcho).
Nos minutos finais o Inter ensaia uma pressãozinha, pra tentar reduzir os prejuízos e facilitar sua vida no jogo de volta. Já estávamos com 46min (faltando mais 3 para o término do jogo, já que ele deu 4 de acréscimos) quando Giuliano escapa bem pela direita, dribla dois, e aí comete um ledo engano: pedala na frente do Dinho. Se driblasse o Dinho, sairia na cara do Danrlei, gol quase certo. Mas era o Dinho. Faça o que tu quiseres na frente do Dinho, só não saçarica. Giuliano toma uma entrada que chegou a arrancar um “ooooh” do estádio inteiro. Um “ooooh” seguido de comemoração. Essa nem o juizão cisplatino engoliu: Dinho na rua. Aplaudido de pé. Evitou uma chance clara de gol e deixou o garoto Giuliano rolando no chão. Danrlei foi até ele e disse: “eu avisei”. E avisou mesmo: Giuliano fratura a perna.
Roger ergue os braços chamando a torcida. Olímpico pulsa. Grêmio segura o Santos nos minutinhos finais. Eram 10 contra 10 (Inter já tinha feito 3 substituições). Mais espaços no campo favoreciam a molecada ligeira do inter. Mas a torcida do Grêmio preencheu esses espaços com urros e cânticos de guerra. Tudo sob controle. Fim de jogo. Grêmio 3, Inter 1.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Catarse

Em uma sala calma com azulejos brancos ficou pensando sobre a vida, buscou todos os lixos em seu interior, meditou, respirou fundo e olhou para o telhado baixo do local. Gotas de suor desciam do alto de sua cabeça acariciando seu rosto. Podia sentir, estava próximo, as impurezas seriam expurgadas de seu corpo, mas, antes um pequeno prenúncio, um “luuuz” sonoro e fino. E tudo começou, atingiu a catarse e bem ali, no quarto branco, tudo seria exposto. Tudo que se embrenhava em suas vísceras seriam jogados diante dos olhos de quem quisesse ver. E então, sentado no lindo e cheiroso vaso, que brotava uma essência de pinhos, cagou.

sábado, 14 de agosto de 2010

Os velhos males do Zé (Parte I)

Me acostumei tanto com meu estilo delicado de lenhador russo que toda palavra minha tornou-se irremediavelmente condicionada a abrir lascas também irremediáveis na carne dos sensíveis. Não posso evitar, e muitas vezes me pergunto se quero.

Talvez um simulacro de idade da pedra me caísse melhor, com trogloditas letrados que ofender-se-iam mutuamente sem a necessidade do recurso da pedra lascada. Só mesmo palavras pontudas voando a esmo na atmosfera aridamente confortável.

Ou talvez o cavalheirismo e os direitos humanos tenham destruído a arte do livre bullying, que compõe as melhores histórias de nossos pais e as mais interessantes mesas de jantar. Talvez sim, talvez não. O fato é que eu me sinto um pouco incomodado.

Como eu já disse, me acostumei tanto com meu estilo lenhador russo que não controlo mais o fio de meu machado esguio. Saibam então, meus amigos, que boa parte dos golpes desferidos são realizados por distração ou desleixo, e vocês podem ter levado algumas machadadas fraternais.

  © Blogger template 'Perfection' by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP