Telegrama
Não virei pastor como queria aos 12 e provavelmente aos 30 não estarei no ministério das relações exteriores como quero aos 22. Os pesadelos nunca passam. Já decorei cada fração de segundo de infinita highway e ainda assim continuo acordando todas as noites molhado de suor. Antes eu até me apavorava. Hoje, já faz parte de mim. Apenas acordo, me acalmo, espero um pouco e volto a dormir.
Não sei se um dia realmente terei orgulho de mim. Talvez assim como os pesadelos, essa palavras tristes se tornem tão comuns que passem desapercebidas e não atrapalhem o teatro de uma vida feliz. Algo como escola cinema, clubes filhos ou televisão.
As fases vem e vão. Me falaram pra parar de falar de amor e que preferem as tendências suicidas. E no outro canto da mesma, na mesma esquina em outra canção me falaram que talvez o amor seja a maior das tendências suicidas. As vezes vejo essas ausências criativas. Talvez uma hora uma delas chegue e nunca mais se vá. E então com 40 eu poderei pensar que não sou o escritor das causas perdidas que me dava o luxo de sonhar aos 21.
Vejo poesia em todos os cantos da cidade. No mendigo na calçada. No grafite. Nas arquibancadas. Nos bares. Há quem diga que eu sou melhor em prosa do que poesia. E eu digo que essa poesia por segundos preferidas e universal, num trago qualquer de uma noite memorável foi embora e acho que nunca vai voltar. Lamento que tanto encanto tenha se perdido em vão numa noite, que assim como os pesadelos, prefiro esquecer. E o final continua por esperar. Mas a vida não é feita de finais.