Difícil acreditar
Eu me lembro perfeitamente quando ele veio para a minha sala. Cara e cabelo de índio e fama de custoso. Diziam que ele era brigão, que dava trabalho e tudo mais. Não pensei duas vezes e com uns 7 anos falei pra mim mesmo, taí meu inimigo número 1 ! Meu Lex Luthor ou coisa parecida. Acho que ele nem se dava conta disso e eu lá, elegendo ele meu inimigozinho das brincadeiras infantis. Lembro que ele foi o primeiro cara que eu briguei , depois da minha festinha de aniversário de 7 anos e rolamos no chão com muita categoria, feito gente grande. Eu era grande e ele era bravo, não afinava não. Aí a tia Natalina veio e separou a gente e nos poupou de ir pra secretaria. Mas oportunidades não faltariam. Lembro que continuamos com briguinhas e até levei uma surra memorável do meu pai por causa disso. Lembro de quando chamei um outro amigo-mais-chegado-que-irmão meu, o Ruither e falei: " Vamo bater no Isaque? " Ele aceitou e chegando lá quando vi que a coisa ficou feia debandei e deixei o pobre do Ruither apanhando.
Aí até que um dia que chegou outra tia fera , a tia Ozirene. Também me lembro que ela nos colocou sentados um frente ao outro na escada do prédio "velho " e perguntou algo como, pra que isso? E lembro que meio que não sabia a resposta. E simples assim ficamos numa boa. Amigos como no fundo éramos desde o começo. Passei o dia com a imagem que nunca esquecerei na minha mente daquele indiozinho sorridente com o dedo ligado na tomada 24 horas correndo pelo pátio "velho ". Lembrei de tudo. Lembro de quando tinha uns 8 anos, meu pai me buscou e paramos pra conversar os três. Meu pai bateu o maior papo com ele e ele deu um cartão da loja do pai dele pro meu. E lembro dele falar, depois você vai lá tio, feito gente grande. Evidentemente conquistou respeito e admiração dos meus pais conforme fomos crescendo e a sua personalidade foi se mostrando.
Acho que todo mundo tem aquela figurinha carimbada da infância que tudo era a pessoa. Na minha foi ele. No dia da família um garoto conseguiu andar com as pernas de pau, foi ele. No acampamento estouraram uma caixa de abelhas, foi ele. Strip-tease na mesa da professora depois do banho de mangueira, também. E o menino que eu queria não gostar, acabou se tornando o menino que trocava as figurinhas dificeis pra mim, que enfrentava os caras que eu não gostava todos os dias e que acabou ficando amigo de todo mundo também. Lembro da primeira vez na vida que eu ouvi a palavra "jiu-jitsu". Foi com ele. E dele falar que no jiu-jitsu era possível um menino de 10 anos vencer um de 14. E as vezes, devo dizer, nos deus algumas demonstrações práticas disso.
Futebol, jiu-jitsu-, tia lola, capoeira, carros, bagunça, mas principalmente, alegria. Não consigo lembrar dele sem sorrir e sem passar aquela sensação de ser gente boa que só alguns conseguem. O tempo passou, claro. Crescemos, mudamos de sala e evidentemente de escolas. As preferências foram se afunilando e perdemos cada vez mais contato. Mas lembro de sempre receber notícias dele. Meu pai chegar e falar, sabe quem eu vi dando um pau num skate na rua? Ou de outro chegar e falar, sabe que eu vi brincando na pracinha tal? E por aí foram. Sempre me falando oi com a mesma familiaridade do amigo de infância que o tempo passa mas a amizade continua.
Te admiro cara, por tudo. Por ter sido o primeiro a puxar a fila dessa verdade tão difícil da vida. Te admiro por lembrar de você como amigo de infância e não ter nada a reclamar. Pela sua coragem natural que nasceu junto com você. Ficam as melhores lembranças possíveis e um dia, mais cedo ou mais tarde, nos encontramos . E só queria que todos saibam que do fundo do meu coração a criança que ainda existe em mim e que nunca vai crescer , chora. Chora bastante.

